Por Mayara Maluceli
Edição: Thays Prado
Edição: Thays Prado
Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, o Portal Natura Ekos entrevistou Maria Vanete de Almeida. Transformadora de realidades, ela se dedica de corpo e alma a causas sociais. Vanete nasceu no sertão pernambucano em 1943 e, durante a década de 1980, lutou pela inserção feminina no meio sindical. Inspirou o livro “Ser Mulher num Mundo de Homens” (Cornélia Parisius, Ed. SACTED/DED), preside o Centro de Educação Comunitária Rural, no município de Serra Talhada (PE), integrou o Conselho Nacional de Políticas para Mulheres de 1996 a 2003 e, em 2005, foi indicada pela ONG suíça Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo ao Prêmio Nobel. Desde 1996, é coordenadora internacional da Rede de Mulheres Rurais da América Latina e do Caribe, fundada por ela e, aos 68 anos de idade, não pensa em parar de lutar para que as mulheres adquiram mais poder sobre a própria vida.
Como a senhora decidiu fundar a Rede LAC (Rede de Mulhleres Rurais da América Latina e do Caribe)?
Na verdade, eu não decidi, as coisas foram acontecendo. Em 1990, participei do V Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, na Argentina. Como condição para participar desse encontro, eu solicitei uma oficina. Eu queria reunir mulheres rurais do continente. Mas, das mais de 3 mil participantes, apenas oito compareceram à oficina. E foi assim que eu decidi que precisávamos descobrir onde estavam as mulheres rurais da América Latina e começar a reuni-las.
Depois disso, muitas vezes, enquanto as trabalhadoras rurais estavam reunidas para discutir sobre suas vidas, a senhora se deparava com o silêncio dessas mulheres, provavelmente o mesmo silêncio que as impedia de falar sobre as agressões que sofriam dentro de casa e no trabalho no campo. Como foi o processo de dar voz a essas mulheres?
Foi no sertão de Pernambuco onde me deparei com o maior silêncio das mulheres. Elas sequer conseguiam se apresentar. Eu fazia um círculo e dizia: “vamos nos apresentar, cada uma dizendo o seu nome…”. E normalmente elas choravam e não conseguiam falar. Houve um encontro em que elas choraram tanto, que a gente o chamou de o Encontro Molhado.Foi preciso construir metodologias para fazer essas mulheres falarem. A metodologia consistia em, principalmente, duas coisas: pouca luz e música. Além disso, pedíamos para que elas estivessem relaxadas, de preferência, deitadas. Daí a gente ia estimulando para que elas contassem quem eram, onde viviam, a quem pertencia o corpo delas… E assim nós fomos vencendo essa dificuldade da fala.
E quem eram essas mulheres?
Elas eram trabalhadoras rurais, pequenas proprietárias, trabalhadoras sem terra, mulheres em assentamentos, pequenas produtoras. Essencialmente, mulheres que moram no campo e vivem do trabalho no campo.
O que significa ser uma delas? Que desafios e dificuldades essas mulheres ainda enfrentam?
Essas mulheres são especialmente fortes, corajosas, alegres, dispostas. Vale à pena incentivar que essas mulheres se organizem e lutem pelos seus direitos. Ainda temos muitas dificuldades: as distâncias geográficas entre as mulheres e delas até os centros urbanos, as dificuldades financeiras, o preconceito e a discriminação ainda existentes. Um dos principais desafios da Rede LAC, hoje, é conquistar outras mulheres para que elas também participem, aprendam e ensinem sobre suas vidas, sobre o seu trabalho e sobre suas organizações.
O que significa ser “uma mulher num mundo de homens”, como diz o livro de Cornélia Parisius, inspirado em sua história?
Ser uma mulher num mundo de homens é ter essa consciência e não se dobrar à realidade de que a gente vive num mundo onde os homens têm mais valor, têm mais lugar, têm mais participação. A gente tem que lutar contra essa realidade mostrando que o mundo não é dos homens. O mundo foi pensado e criado para homens e para mulheres.
Podemos afirmar que o sertão abriga mais preconceito contra as mulheres do que as regiões urbanas?
De jeito nenhum… As mulheres do campo ou da cidade sofrem preconceito e discriminação onde quer que estejam. Isso acontece não só no Brasil, acontece também na América Latina, na África. Se você chegar em uma cidade, como São Paulo e Rio de janeiro, ou uma cidade pequena como a que eu vivo, Serra Talhada, você vai perceber que as mulheres estão ausentes das decisões, não sabem muito sobre seu corpo, sobre sua vida. Essa realidade não é específica da mulher do campo, é específica da mulher.
Trabalhar e ter renda própria são fundamentais para que as mulheres adquiram autonomia sobre suas vidas? Qual é a função do trabalho para a recuperação de poder pessoal das mulheres?
O trabalho é muito importante para qualquer pessoa, para qualquer ser humano. Mas, no meu entendimento, ele não é fundamental para a autoestima. A questão da autoestima e da independência da mulher passa pelo pessoal e pelo psicológico. Eu conheço médicas e advogadas que têm renda própria e não têm essa autonomia e independência. Essa independência não passa necessariamente pelo financeiro, passa pelo sentimento de que “eu sou uma pessoa importante, eu sei das coisas, eu sou independente, eu me garanto como pessoa, estando com um homem, ou não, eu assumo minha vida pessoalmente”. Essa independência psicológica é mais importante do que qualquer outra coisa.
Mesmo com tanta disseminação de informações, com legislações como a Lei Maria da Penha e o trabalho de diversos movimentos sociais, os índices de violência doméstica contra as mulheres, no Brasil e no mundo, são assustadores. A que a senhora atribui o fato de, a cada dois minutos, cinco mulheres serem agredidas no país?
É muito triste esse número. Saber que a cada dois minutos, cinco mulheres são agredidas… É importante saber que a violência doméstica sempre existiu, só que, agora, está se tornando mais visível. Essa nova condição de mulher, uma mulher que quer seu espaço, uma mulher que luta por seus direitos, que já não é mais submissa, infelizmente, provoca mais violência. Nós estamos passando por um período histórico muito forte de agressões contra as mulheres e temos que enfrentá-lo com muita coragem.
Qual é o papel do Estado, das mulheres e dos homens para mudar estatísticas como essa?
O papel do Estado é ter instrumentos que realmente apoiem e defendam as mulheres. A Lei Maria da Penha é muito importante, mas é um papel, é uma lei. Agora, ela tem que funcionar, tem que oferecer mecanismos que realmente sirvam à defesa das mulheres. Por exemplo, nós só temos Delegacias de Mulher nos grandes centros. Aqui, onde eu vivo, a delegacia mais próxima está a 500 quilômetros. Esses instrumentos têm que chegar mais perto, principalmente das mulheres rurais, porque, no campo, a violência é muito mais invisível, e muito mais silenciada. Uma mulher do campo está a 10 quilômetros de distância da outra, então, sequer com um grito, alguém a ouvirá.Então, as políticas públicas voltadas para o combate à violência contra as mulheres precisam se adaptar à realidade rural. Tem que ter posto de saúde e polícia próximos a essas mulheres, todos preparados para receber com carinho e apoiar essa mulher, sem dificultar a denúncia e o pedido de socorro.O silêncio é cúmplice da violência e é por isso que a mulher não pode mais se silenciar. Precisamos estar juntas, nos apoiando, umas às outras, em casa, no trabalho, na sociedade como um todo.Por fim, os homens têm que saber que nós somos iguais a eles. A gente não quer ser mais, nem quer ser menos. Eles são filhos de mulheres. E têm que tratar a mulher com respeito, com igualdade de direitos. Quem sabe a gente chega numa sociedade em que o homem e a mulher enfrentem, juntos, a vida, com igualdade, com respeito e sem violência?
Quando poderemos olhar para nossa sociedade e considerar as mulheres independentes? O que representaria um cenário em que, de fato, as mulheres têm total poder de decisão sobre a própria vida?
Quando a gente puder ter os mesmos empregos que os homens, quando a gente tiver os trabalhos domésticos bem divididos, quando o filho não for só da mãe, quando pudermos nos vestir sem sermos abordadas na rua com desrespeito. É um conjunto de coisas que forma a vida, e que forma nossa decisão de mulher.
O que te move a continuar empenhada em oferecer educação e contribuir para o empoderamento das
mulheres?
Muita coisa. Uma das principais coisas que me move é quando eu vejo uma mulher que antes nem falava e que, hoje, é dirigente de uma associação ou de um sindicato, e fala com muita força interior. Me motiva ver uma mulher que não tinha autonomia de sair de casa para uma reunião, e agora passa uma semana fora nas discussões políticas. É a transformação dessas mulheres, é o empoderamento, a força, a alegria e a coragem dessas mulheres que, como mulher que também sou, me mostram que é possível a gente mudar essa realidade de opressão que vivemos até hoje.
Ouça também as vozes das mulheres de duas comunidades fornecedoras de ativos para Natura Ekos.

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